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segunda-feira, julho 07, 2003


Um e-mail que recebi de uma grande amiga:

Meninas,
Um libelo a nossa liberdade, vamos parar de ser cidadăs de segunda, esse texto expressa o alerta que toda mulher do 3ş milęnio tem que se conscientizar, parar de ser machista e criar homens machistas, năo ceder ŕ sociedade de consumo, se dar o devido valor. Nós somos, fazemos e vamos transformar o mundo !
Cla.


MAIS MACHO QUE MUITO HOMEM
Rita Lee

Eu tinha 13 anos, em Fortaleza, quando ouvi gritos de pavor. Vinha da vizinhança, da casa de Bete, mocinha linda, que usava tranças. Levei apenas uma hora para saber o motivo. Bete fora acusada de năo ser mais virgem e os dois irmăos a subjugavam em cima de sua estreita cama de solteira, para que o médico da família lhe enfiasse a măo enluvada entre as pernas e decretasse se tinha ou năo o selo da honra. Como o lacre continuava lá,os pais respiraram, mas a Bete nunca mais foi ŕ janela, nunca mais dançou nos bailes e acabou fugindo para o Piauí, ninguém sabe como, nem com quem.
Eu tinha apenas 14 anos, quando Maria Lúcia tentou escapar, saltando o muro alto do quintal da sua casa para se encontrar com o namorado. Agarrada pelos cabelos e dominada, năo conseguiu passar no exame ginecológico. O laudo médico registrou "vestígios himenais dilacerados", e os pais internaram a pecadora no reformatório Bom Pastor, para se esquecer do mundo. Realmente esqueceu, morrendo tuberculosa.
Estes episódios marcaram para sempre a minha conscięncia e me fizeram perguntar que poder é esse que a família e os homens tęm sobre o corpo das mulheres. Ontem, para mutilar, amordaçar, silenciar. Hoje, para manipular, moldar, escravizar aos estereótipos.

Todos vimos, na televisăo, modelos torturados por seguidas cirurgias plásticas. Transformaram seus seios em alegorias para entrar na moda da peitaria robusta das norte americanas. Entupiram as nádegas de silicone para se tornarem rebolativas e sensuais, garantindo bom sucesso nas passarelas do samba.

Substituíram os narizes, desviaram costas, mudaram o traçado do dorso para se adaptarem ŕ moda do momento e ficarem irresistíveis diante dos homens. E, com isso, Barbies de fancaria, provocaram em muitas outras mulheres - as baixinhas, as gordas, as de óculos - um sentimento de perda de auto-estima. Isso exatamente no momento em que a maioria de estudantes universitários (56%) é composta de moças. Em que mulheres se afirmam na magistratura, na pesquisa científica, na política, no jornalismo. E no momento em que as pioneiras do feminismo passam a defender a teoria de que é preciso feminilizar o mundo e torná-lo mais distante da barbárie mercantilista e mais próximo do humanismo.
Por mim, acho que só as mulheres podem desarmar a sociedade. Até porque elas săo desarmadas pela própria natureza. Nascem sem pęnis, sem o poder fálico da penetraçăo e do estrupro, tăo bem representado por pistolas, revólveres, flechas, espadas e punhais. Ninguém diz, de uma mulher, que ela é de espadas.

Ninguém lhe dá, na primeira infância, um fuzil de plástico, como fazem com os meninos, para fortalecer sua virilidade e violęncia. As mulheres detestam o sangue, até mesmo porque tęm que derramá-lo na menstruaçăo ou no parto. Odeiam as guerras, os exércitos regulares ou as gangues urbanas, porque lhes tiram os filhos de sua convivęncia e os colocam na marginalidade, na insegurança e na violęncia. É preciso voltar os olhos para a populaçăo feminina como a grande articuladora da paz. E para começar, queremos pregar o respeito ao corpo da mulher. Respeito ŕs suas pernas que tęm varizes porque carregam latas d'água e trouxas de roupa. Respeito aos seus seios que perderam a firmeza porque amamentaram seus filhos ao longo dos anos. Respeito ao seu dorso que engrossou, porque elas carregam o país nas costas. Săo as mulheres que imporăo um adeus ŕs armas, quando forem ouvidas e valorizadas e puderem fazer prevalecer a ternura de suas mentes e doçura de seus coraçőes.

"Nem toda feiticeira é corcunda, nem toda brasileira é bunda. E meu peito năo é de silicone; sou mais macho que muito homem"

Rita Lee




Bruna 11:40 AM



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