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segunda-feira, setembro 08, 2003
Segunda feira, de volta ao trabalho. Uma correria sem fim... Passei um final de semana legal, tranquilo. E ontem ŕ noite fui encontrar minha irmă, na esquina em frente ao Institut du Monde Arab. Quando cheguei, ela não estava. Não estava porque na mesma esquina tinham vários caminhões de bombeiros, polícia e ambulâncias. Estava caminhando em direção ao lugar marcado, olhando pra lua maravilhosa no céu, pensando em coisas lindas que andam acontecendo na minha vida. Não prestei atenção ao que acontecia em baixo do meu nariz. Tinha uma mulher jogada no chão, morrendo. Morrendo alí, na esquina, na frente dos pedestres, do transito, da lua. Na minha frente. Todos as pessoas dos caminhões estavam tentando reanimá-la. Respiração artificial, coração, etc. Como no cinema. Eu não sei lidar com essas coisas. Eu não reajo bem aos acidentes, mortes, etc. Fiquei congelada, sabendo que não seria legal olhar, mas querendo, desesperadamente ter a confirmação que a moça ia sobreviver. Aquela reação meio feia, muito humana, que leva milhões de espectadores ao cinema assistir "Titanic", onde passamos várias horas vendo centenas de pessoas morrendo. Encontrei minha irmã, que estava esperando um pouco mais longe, no final do quarteirão. Me levou embora, sendo que me conhece bem, e sabe que eu ficaria grilada. Conversamos sobre a morte, sobre nossas reações. Ela fica numa boa. Usa a situação para reavaliar a sua vida, dar o devido valor às coisas que ela esta vivendo. Eu não consigo ter reações tão nobres. Eu quero saber se a moça está viva ou morta, saber o que aconteceu, o que vai acontecer. Porque eles passaram tanto tempo tentando reanimá-la? Se o coração não começa a bater sozinho logo, adianta alguma coisa ficar lá tentando? Minha irmã me arrastou pra longe, passeamos, vimos um grupo de salsa, um grupo de tango, um grupo de capoeira, e uma exposição muito ruim nas margens do rio. Voltamos, pra encontrar os malucos que moram com ela, numa loja de crepes. Passamos de novo na frente da moça. Não dava pra ver grande coisa, porque estavam todos ainda no mesmo lugar. Acho que ela estava viva. Espero que sobreviveu. Espero que não teve sequelas por falta de sangue no cérebro. Espero que vai poder continuar sua vida numa boa. Espero que aquela imágem não vai permanecer impregnada na minha mente pra sempre. Espero que a sensação horrivel que ficou em mim vai passar.
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