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quarta-feira, maio 12, 2004
Pensando, e vivenciando a pequenez humana, hoje lembrei de um dia, muito tempo atrás, quando entendi o quanto eu fazia parte dessa pequeneza. Estava frio, chovendo, ventando. Estava perdida, tentando achar a casa de uma moça, amiga do meu antigo roomeite (que naquela época era mais que um simples roomeite). Eu me irritava mais e mais a cada minuto. Não conhecia a tal de moça. Não queria ir pra casa dela. Nem estava conseguindo encontrar a casa. Liguei pra ela, quase chorando, de um telefone público (isso foi antes da era celular). Expliquei que estava perdida, queria falar com o roomeite. Ele pegou o telefone, rindo. Tentou me explicar onde era a casa, mas ela pegou o telefone dele, e me deu instruç?es de como chegar lá, mais ou menos. Desligou. Eu queria falar com ele, não com ela. Queria que ele entendesse que estava estressada, e queria que ele oferecesse de descer me encontrar, cuidar de mim, me salvar daquilo tudo. Mas ele só ria no fundo, e ela não me deixava falar com ele. Voltei pra rua, naquele bairro de ricos podres, com raiva, com frio, molhada até a alma. A chuva diluía minhas lágrimas de raiva e desespero.
Encontrei a casa da moça. Subi as escadas querendo matar aquela gente toda. Ouvia as risadas deles do outro lado da porta. Toquei a campainha.
Ela abriu a porta. Era negra. Grande, bonita. Tinha sua filha no colo, que também ria. Olhei pro roomeite, tentando expressar o meu desespero em um olhar. Mas ele não via nada. Estava contagiado pelo com humor daquela casa. Mal me comprimentou.
A moça me sentou no sofa, longe dele, e me deixou sua filha, pra mim cuidar, e brincar. Ela voltou pro outro canto da grande sala, continuar sua conversa animada com ele.
Resolvi que odiava todos eles. Resolvi que ia embora daquele lugar. Resolvi que nunca perdoaria nada daquilo.
A menininha não entendia nada. Achava que eu estava alí pra brincar com ela. Não possuia barbies ou brinquedos. Mas brincava com as minhas mãos molhadas, com o cadarço do meu sapato, com o meu cabelo. E ria, sempre ria.
Pouco a pouco fui secando, me esquentando naquela casa estranha, me acalmando.
A moça nos levou jantar num restaurante africano. Me sentou longe do roomeite, mais uma vez, e dessa vez, conversou comigo. Comecei a enteder porque eles riam tanto, todos. Ela tinha um calor, um bom humor, carinho, que saía pelos poros. Ela não levava a vida ? sério. Não se importava com a chuva, nem com a minha raiva. Conseguiu me derreter completamente. Apareceram amigos de todos os lados. Todos queriam conversar conosco, todos queriam nos conhecer.
A comida do restaurante estava boa. A conversa também. Todos participavam. Várias geraç?es. Várias cores.
A minha raiva desapareceu. A chuva parou. E entendi que aquele mal estar todo era a tal da pequenez humana. A minha. Essa moça, com o seu bom humor, não sentiria nunca aquela frustração que eu tinha sentido. Porque não levava nada suficientemente ? sério pra deixar ela parar de rir. Ele não conseguia entender minha raiva porque estava contagiado pela simplicidade e felicidade da casa da moça.
Também fui contagiada...
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